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Histórias fantásticas: por que crianças aprendem melhor com elas

Histórias fantásticas: por que crianças aprendem melhor com elas

Pesquisa recente mostra que, ao contrário do que se acreditava, crianças aprendem vocabulário melhor quando ele faz parte de histórias fantásticas.

Histórias fantásticas são um dos maiores patrimônios da humanidade como espécie. Desde o surgimento da civilização humana, fizeram parte de todas as culturas de que se tem notícia.

Hoje, o que mudou é que não as consumimos majoritariamente como histórias contadas, mas assistimos séries e filmes, lemos livros e fanfics. Além disso, as narrativas infantis também parecem preferir o caminho da fantasia: mundos paralelos, personagens fantásticos, magia e contos de fadas.

Gostamos de ouvir, criar e contar histórias fantásticas porque isso é parte da nossa natureza. Mas esse hábito também tem uma função importante no aprendizado das crianças - e segundo pesquisas, mais do que as histórias calcadas na realidade.

Um estudo de 2015 feito por pesquisadores de universidades nos EUA e na Turquia identificou, pela primeira vez de maneira quantitativa, que crianças aprendem melhor com histórias fantásticas, em comparação ao aprendizado gerado por narrativas realistas.

A descoberta contesta teorias anteriores, que defendiam que crianças aprendem novas palavras de maneira mais eficiente quando esses termos aparecem em situações familiares para elas. Mesmo que as razões ainda não estejam claras, isso pode apontar para possibilidades e estratégias novas no campo da educação infantil.

Dragões voadores ensinam melhor

Estudos nas áreas de psicologia e pedagogia mostram que as competências linguísticas aprendidas na infância são fundamentais para determinar as capacidades de comunicação e compreensão de texto do indivíduo no futuro. Por consequência, têm efeito geral no desempenho dos indivíduos em toda a vida escolar.

Por essa razão, a pesquisadora Deena Skolnick Weisberg, do departamento de psicologia da Universidade de Pensilvânia, nos EUA, adotou esse como o principal critério de avaliação de sua pesquisa.

Ela queria analisar se histórias fantásticas, com elementos irreais, tinham efeito melhor no ensino de palavras novas às crianças quando comparadas a histórias com elementos e eventos do mundo real.

A pesquisa foi conduzida com 154 crianças em idade pré-escolar, e o resultado sugere que histórias com temas fantásticos são mais eficientes em ensinar palavras novas para crianças do que aquelas baseadas em universos e acontecimentos do mundo real.

As histórias fantásticas apresentadas às crianças tinham como personagens animais antropomórficos, isto é, bichos que se comportam como humanos. Uma descoberta interessante é que o aprendizado foi ainda mais eficiente em se tratando de histórias que continham não só animais antropomórficos, mas fatos impossíveis de acontecer na realidade (como um dragão nascendo de um ovo no café da manhã).

Em um artigo para o site "Aeon", Weisberg sugere que outros estudos devam investigar os motivos pelos quais isso acontece - o que há nas histórias fantásticas que faz com que crianças aprendam mais?

No entanto, ela já aponta algumas hipóteses:

  • Talvez crianças recebam e assimilem melhor conhecimento quando elas se sentem surpresas e o contexto, de alguma forma, desafie o que ela sabe sobre o mundo físico e a realidade. As histórias fantásticas funcionariam como uma provocação dessas presunções e fariam a criança prestar mais atenção.
     
  • Outra possibilidade é que haja algo a respeito de contextos fantásticos que seja especialmente útil para o processo neurológico de aprendizagem. Talvez a imersão em um cenário impossível demande do cérebro uma capacidade maior de processamento, porque ele se vê obrigado a tratar esse cenário como uma situação nova, não como algo com que já lidou e que, portanto, sabe exatamente como lidar. A necessidade constante de analisar o que, na história, se encaixa ou não no mundo real, pode ser um vetor de fixação de conhecimento e memórias no cérebro.
     
  • Histórias fantásticas podem provocar uma imersão maior e, por isso, resultar em melhor aprendizado.
     
  • Talvez, histórias fantásticas - que por definição têm elementos que não estão presentes no dia-a-dia da criança - podem ser mais interessantes e prender mais atenção porque despertam na criança a vontade de participar e sugerir elementos e ideias novas que não faziam parte de sua experiência comum, ou seja, as permitiam explorar mais.
  • O apelo da fantasia para a natureza humana

É parte da natureza da espécie humana o desejo de criar e contar histórias - nas mais diversas culturas esse hábito está associado à iniciativa de tentar explicar o mundo.

Lendas, mitos, deuses e seres fantásticos surgiram para explicar e dar sentido a fenômenos naturais: coisas simples como a chuva, relâmpagos e a maneira como o vento move as folhas de uma árvore ganhavam explicação com histórias fantásticas, muito antes de que a ciência tivesse meios para esclarecê-los - e esses mitos ajudaram a formar culturalmente as sociedades ocidental e oriental.

Além disso, histórias de ficção e fantasia são consideradas por estudiosos uma espécie de vantagem evolutiva do ser humano. Diversos estudos sobre aprendizado e cognição apontam que o ser humano aprende melhor quando as informações são colocadas em contexto.

Por isso, é mais eficiente para o aprendizado contar uma história em que um caçador morre em um duelo porque subestimou a força de um dragão do que propagar o conhecimento através de uma frase do tipo “tome cuidado com os lobos”.

“Os contos de fadas, por exemplo, foram provavelmente o disseminador mais poderoso da cultura da ‘finesse’ na França durante o século 18, porque ensinavam como se comportar em grandes salões e na alta sociedade por meio de histórias moralizantes. É um método de ensino muito eficaz”, explica Cláudia Oliveira, mestre em estudos de ficção científica pela Universidade de Liverpool, no Reino Unido, em entrevista ao Nexo.

 


Fonte: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/07/08/Hist%C3%B3rias-fant%C3%A1sticas-por-que-crian%C3%A7as-aprendem-melhor-com-elas (Texto de Ana Freitas)

 

Última modificação emQuarta, 22 Março 2017 10:54
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